Moradores de Brumado têm questionado por que a prefeitura não pode simplesmente pegar dinheiro destinado a eventos e investir em saúde, infraestrutura ou educação — e vice-versa. A dúvida é comum, principalmente em momentos de crise, quando filas na saúde aumentam ou obras demoram a sair do papel. A resposta está na legislação brasileira, que impõe regras rígidas sobre como o dinheiro público pode ser usado.
Entender essas regras ajuda a população a fiscalizar melhor o poder público e a cobrar soluções reais, sem cair em informações incorretas ou simplificações perigosas. A seguir, explicamos, de forma clara, o que a lei permite e o que a lei proíbe.
Quem define como o dinheiro da prefeitura pode ser gasto?
No Brasil, o uso do dinheiro público é regulado por um conjunto de leis federais, estaduais e municipais. No caso dos municípios como Brumado, as principais são:
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Constituição Federal
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Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/2000)
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Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)
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Lei Orçamentária Anual (LOA)
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Plano Plurianual (PPA)
Essas normas determinam que cada recurso arrecadado ou recebido pela prefeitura deve ter uma destinação específica. Ou seja, o dinheiro não é um “caixa único” onde o prefeito pode tirar de um lado e colocar em outro livremente.
O que é a Lei Orçamentária Anual (LOA)?
A Lei Orçamentária Anual é o documento que autoriza a prefeitura a gastar dinheiro ao longo do ano. Ela é aprovada pela Câmara de Vereadores e detalha:
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Quanto o município espera arrecadar
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Em que áreas esse dinheiro será gasto
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Quais programas e ações receberão recursos
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Quanto vai para saúde, educação, infraestrutura, cultura, eventos, etc.
Se o orçamento prevê, por exemplo, R$ 2 milhões para eventos e R$ 50 milhões para saúde, a prefeitura só pode gastar nesses limites e nessas finalidades. Mudar isso exige um processo legal específico.
Por que a verba de eventos não pode ser usada livremente na saúde?
Porque, pela lei, cada despesa pública precisa estar prevista no orçamento e classificada por função e programa.
Eventos geralmente entram em categorias como:
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Cultura
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Turismo
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Lazer
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Promoção econômica
Já a saúde tem orçamento próprio, vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e a regras constitucionais.
Se a prefeitura usar dinheiro de eventos para pagar despesas da saúde sem autorização legal, isso pode ser considerado:
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Desvio de finalidade
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Irregularidade administrativa
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Ato de improbidade administrativa
Essas infrações podem gerar:
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Multas
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Rejeição de contas pelo Tribunal de Contas
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Processos judiciais
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Inelegibilidade do gestor
A prefeitura nunca pode remanejar dinheiro de uma área para outra?
Pode, mas apenas dentro de regras muito específicas.
O remanejamento de verbas é chamado de:
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Crédito adicional
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Transposição
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Remanejamento
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Transferência de recursos
Para isso acontecer legalmente, é necessário:
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Autorização da Câmara de Vereadores
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Existência de previsão na LDO
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Indicação da fonte do dinheiro
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Justificativa formal do interesse público
Mesmo assim, há limites. Recursos vinculados — como os da saúde e da educação — não podem ser usados para outras finalidades.
O que são recursos vinculados?
Recursos vinculados são verbas que a lei obriga a serem gastas em uma área específica.
Os principais exemplos são:
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Saúde: mínimo de 15% da receita do município
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Educação: mínimo de 25% da receita do município
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Fundeb: só pode ser usado na educação básica
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Verbas do SUS: só podem ser usadas em ações e serviços de saúde
Se a prefeitura usar dinheiro da saúde para pagar um show, por exemplo, isso é ilegal. Da mesma forma, usar dinheiro da educação para tapar buraco em rua também é proibido.
Dinheiro de eventos vem de onde?
A verba usada para eventos pode ter diferentes origens:
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Recursos próprios do município
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Emendas parlamentares
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Convênios com o governo estadual ou federal
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Patrocínios privados
Quando o dinheiro vem de emenda ou convênio, ele já chega “carimbado” com uma finalidade específica. Se a emenda foi destinada para um festival cultural, ela não pode ser usada para comprar medicamentos ou reformar postos de saúde.
Mesmo quando o dinheiro é do próprio caixa da prefeitura, ele só pode ser gasto conforme o que foi aprovado no orçamento.
Por que a lei impõe essas regras?
As regras existem para evitar:
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Uso político do dinheiro público
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Gastos improvisados sem planejamento
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Favorecimento indevido
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Rombo nas contas públicas
Sem essas travas legais, um gestor poderia:
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Cortar verba da educação para fazer festa em ano eleitoral
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Tirar dinheiro da saúde para obras sem licitação adequada
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Mudar prioridades sem passar pelo Legislativo
O orçamento é, na prática, um contrato entre o Executivo e a população, aprovado pelos vereadores eleitos.
E se a população quiser que menos dinheiro vá para eventos?
Nesse caso, a solução é política e legal, não administrativa.
A população pode:
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Cobrar mudanças na Lei Orçamentária do próximo ano
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Pressionar vereadores a reduzir a verba de eventos
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Participar de audiências públicas do orçamento
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Sugerir emendas populares à LDO e à LOA
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Votar em candidatos que defendam outras prioridades
Ou seja, o caminho é mudar o orçamento futuro, e não desviar dinheiro já autorizado para outra finalidade.
A prefeitura pode cancelar eventos e economizar?
Sim. Isso é legal.
O que a prefeitura pode fazer:
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Cancelar eventos previstos
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Não executar parte da verba autorizada
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Reduzir contratos
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Contingenciar despesas
O que ela não pode fazer:
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Pegar a verba cancelada e usar livremente em qualquer área sem autorização legal
Se um evento é cancelado, aquele dinheiro volta para o caixa geral, mas só poderá ser reprogramado com autorização legislativa e respeitando as regras de vinculação.
Educação, saúde e infraestrutura seguem regras diferentes?
Sim.
Cada área tem regras próprias:
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Educação: mínimo constitucional, Fundeb, proibições de uso fora da área
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Saúde: mínimo constitucional, regras do SUS, controle rígido
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Infraestrutura: mais flexível, mas ainda depende do orçamento
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Cultura e eventos: mais flexível, mas também depende da LOA
Por isso, não é correto dizer que “é só tirar da festa e colocar na saúde”. Na prática, isso pode ser ilegal se não seguir o processo correto.
O que acontece se o prefeito descumprir essas regras?
As consequências podem ser graves.
Entre elas:
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Rejeição das contas pelo Tribunal de Contas
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Multas pessoais ao gestor
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Ação de improbidade administrativa
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Perda de direitos políticos
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Impossibilidade de reeleição
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Processos criminais em casos mais graves
Por isso, mesmo quando a intenção é boa, o gestor não pode agir fora da lei.
Notícia de Brumado: informação correta evita desinformação
A dúvida sobre o uso do dinheiro público é legítima e saudável em uma democracia. Mas é importante entender que a prefeitura não pode simplesmente trocar verba de eventos por verba da saúde ou da educação sem cumprir a lei.
As regras orçamentárias existem para garantir:
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Planejamento
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Transparência
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Controle social
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Uso responsável do dinheiro público
Se a população de Brumado quer mudanças nas prioridades, o caminho é participar do debate orçamentário, cobrar vereadores e acompanhar a elaboração da LOA, e não exigir medidas que poderiam colocar o gestor em situação ilegal.
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